A Produção Em Massa De Ford E A Ergonomia – Parte 1

 

Você já deve ter ouvido falar muito de Ford, e não digo da marca de automóveis e sim do seu criador, Henry Ford.

Deve ter ouvido também muito sobre a Produção em Massa e os seus efeitos sobre uma série de coisas, como a relação riqueza x pobreza, o incentivo ao consumo, o impacto sobre a natureza no que tange a extração acelerada de recursos e geração de resíduos e por fim, sobre a saúde do trabalhador.

 

Bem, para elaborar este texto usamos a defesa que o próprio Ford fez do sistema de produção que havia há pouco idealizado e que vinha mudando drasticamente a forma como as pessoas viviam.

 

O artigo, escrito pelo próprio Henry, foi publicado na 13ª edição da Britânica, em 1926.

 

O conceito da produção em massa

 

Produção em massa, como o próprio termo sugere, está intimamente relacionada à quantidade. Um método onde se produz grandes quantidades de algo padronizado. Porém, para Ford, a produção em massa ia muito além de produzir volume de uma mesma coisa. Para ele, produzir várias unidades de uma mesma coisa, ou produzir usando máquinas era algo que poderia ser feito sem nenhum dos princípios da produção em massa.


E quais eram, ou são, esses princípios?


Para Ford, a produção em massa era a concentração em um mesmo projeto de fábrica de energia, precisão, economia, sistema, continuidade e rapidez.

 

A metodologia

 

Para Ford, produção em massa era a entrega de produtos úteis, padronizados e a um custo acessível e que isso geraria um ciclo de consumo, ou seja, para que uma produção em massa exista, é necessário que exista uma demanda latente ou em desenvolvimento grande o suficiente para absorver a produção. Como o próprio Henry escreveu: “As duas caminham juntas, sendo possível detectar na última (o consumo) a razão da primeira (a produção)”.

 

 

A necessidade gera demanda à A demanda justifica a produção à Se há produção, há consumo à Conforme o consumo aumenta, aumenta também a qualidade e, com isso, reduz-se os custos à Se os custos caem, o preço final cai à Com preços menores, mais gente pode comprar à Isso gera mais necessidade à E mais demanda…

 

A lei da demanda

 

Ford apresenta número, no mínimo, de cair o queixo para a época em que vivia. Segundo ele, quando a produção sofre um aumento de 500%, os custos caem pela metade e com isso, 100 vezes mais pessoas podem comprar o produto. Recapitulando, 500% a mais na produção = 50% a menos nos custos = 1000% a mais na demanda. Imagina isso em 1920!


A imagem acima mostra o princípio de Ford, numa fábrica que produz 10, ao custo de 10 e vende para 10, caso a produção suba para 50, os custos vão à 5 e a demanda à 100. Ou seja, agora temos 50 produtos disponíveis e 100 interessados e esse desequilíbrio é que fazia, ou ainda faz, a roda girar, pois se agora há 100 interessados a produção terá, novamente, que aumentar para 100 e isso irá reduzir ainda mais os custos e por consequência mais gente passa a ter acesso e a demanda aumenta de novo… E assim por diante, num ciclo contínuo de otimização de recursos, fazendo cada vez mais, com cada vez menos.

 

Os 3 princípios da produção em massa

 

Para Ford, ao olharmos a produção em massa no detalhe enxergaríamos “simplicidade” fundamentada em 3 princípios:

  1. A progressão ordenada e planejada das mercadorias (ou partes) através da fábrica: Ou seja, uma linha de produção não é apenas um produto numa esteira, todas as partes que irão compô-lo precisam caminhar ordenadamente até chegar a ele, do jeito certo e na hora certa.

  2. A transmissão do trabalho de um posto a outro, de modo que o trabalhador não precise mais ir encontrá-lo por iniciativa própria.

  3. Análise da operação (o todo) de modo a dividí-la em partes (cada vez menores).

Da complexidade do todo à simplicidade da parte

 

O terceiro princípio merece destaque, pois ele leva o conceito de produção em massa à essência do raciocínio lógico da engenharia: “Quebrar o problema em partes menores facilitando sua tratativa”. Para Ford, os três princípios não se aplicavam somente a linha de produção, mas em todas as outras linhas que, de alguma forma, forneciam componentes para ela. Ele usa o exemplo da produção de uma mola que vista em particular poderia parecer complexa, uma vez que envolve uma série de etapas como corte, têmpera, curvatura etc. Porém, ao se olhar mola no contexto do carro, esta é apenas uma parte dele, quase que insignificante diante de sua complexidade… Para Ford, essa era a redução da complexa operação à simplicidade máxima.

 

Sobre o mito da monotonia da produção em massa

 

Ford foi enfático ao falar das críticas sobre a repetitividade da produção em massa. Para ele tanto a repetitividade, quanto a monotonia existiam menos nas fábricas e mais na cabeça dos teóricos. E ele justificava isso em dois fatos: A repetitividade existia, e muito, no trabalho de um artesão que além disso ainda sofria com a parte pesada da tarefa. E a monotonia, inerente ao fato de cada um operário executar uma única tarefa, era e deveria ser contornada com a constante mudança de posto. Em resumo, Ford acreditava que as fábrica reduziam o trabalho pesado, que a repetitividade era comum ao trabalho artesanal e que a monotonia poderia ser contornada com rodízios.

 

Redução da mão de obra e de salários

 

Ford cita a experiência da Ford Motor Co. que mantendo um programa contínuo de redução de mão de obra, gerava cada vez mais empregos, num processo de melhor aproveitamento do recurso humano. Além disso, Ford cita que o gestor que optou por trabalhar no método da produção em massa passa a ter uma responsabilidade gigante na gestão contínua de toda a fábrica e que ajustar as finanças por meio da redução de salários, prática comum à época, já não era algo possível, já que a mão de obra, cada vez mais especializada e enxuta, era agora uma parte crucial do processo, não podendo mais ser tratada com desleixo.
Ford finaliza seu texto com uma crítica forte sobre os gestores que financiam suas empresas tirando dinheiro dos funcionários. Para ele, uma empresa forte gera recurso suficiente para pagar seus empregados, seu público e a si própria e que relações tumultuadas de trabalho, salários baixos e lucros incertos mostra incompetência gerencial. Ou seja, para Ford, o sistema moderno de produção em massa não tira oportunidades, muito pelo contrário, ele as gera.

 

Nesse texto – parte 1 – falamos sobre a história e os conceitos da produção em massa de Ford. Você pode entender as influências dessa escola no modelo amplamente utilizado até hoje e o ganhos, na visão do autor, para economia. Na parte 2 – no próximo artigo – vamos falar da relação desse modelo com a ergonomia.

 

Fonte: Este texto é uma adaptação comentada do artigo escrito por Henry Ford para a publicação Britânica, edição 13 (suplemento às edições 11 e 12 de 1926).

 

É isso, vamos pra cima?

——

Este artigo foi escrito por:

Omar Alexandre Ferreira, sócio fundador da Ergotríade, é Fisioterapeuta do Trabalho, Engenheiro de Produção e Mestrando em Ergonomia.

e Rodrigo Cirino de Souza, sócio co-fundador da Ergotríade, é Engenheiro de Produção e Comunicador Social.

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